Redescobrir a Costa Portuguesa

do Porto a Lagos, de bicicleta





OS PREPARATIVOS

Antes de iniciarmos esta viagem, foram necessários alguns preparativos: a montagem do atrelado (KARRO-O), a preparação das bicicletas, muito bem afinadas pelo Sr. Jorge (Biciporto) e a selecção do indispensável para levar: as ferramentas e peças de substituição, a roupa e o essencial para campismo.

Demos uma vista pelo mapa de Portugal para ter uma ideia aproximada das etapas e foi antecipadamente decidido fazer de comboio a ligação de Lisboa a Setúbal assim como tentar ir sempre por percursos próximos do mar. Então ficou decidido que as duas primeiras etapas eram as mais extensas Porto-Torreira e Torreira-Gala e as restantes com cerca de 50 kms. As etapas até às Caldas da Rainha foram delineadas no mapa e a partir daí, até Carcavelos, iríamos perguntar aqui e ali qual o melhor percurso. As etapas a partir de Tróia foram também delineadas ficando somente por esclarecer se a partir de Odeceixe iríamos directamente para Lagos ou se por Vila do Bispo para visitar uns amigos. Iría ser a primeira viagem que ía fazer com um atrelado carregado. Como demorou muito a chegada duma peça (o veio da roda, com engate rápido) não deu tempo nem sequer para dar uma voltinha. E lá fomos nós...





ETAPA 1

Porto - Torreira 72 kms

Era suposto partirmos de manhã cedo. Mas mais isto e mais aquilo e a partida só aconteceu pelo meio-dia.

É o costume. O primeiro obstáculo aconteceu logo que fazíamos meia dúzia de quilómetros. Após atravessarmos a Afurada o caminho junto ao rio Douro, estava interrompido quer para bicicletas quer para passeios pedonais. A solução foi subir até Valadares, uma subida muito íngreme, em paralelo, muitas das vezes a pé. Por um lado deu para sentir o peso que levava, por outro os poucos quilómetros efectuados deram para demonstrar que o atrelado (KARRO-O) era um excelente atrelado.

E o caminho continuou pelas praias: Lavadores, Salgueiros, Madalena, Francelos, Miramar, Aguda, Granja e Espinho.




Em Espinho, cerca de 35 kms cumpridos, fizemos a primeira paragem para um abraço ao Alberto Martins e para as fotografias da praxe.



A partir de Espinho circunda-se o golfe e o quartel do exército e antes de se chegar à passagem de nível vira-se à direita e rapidamente se chega à estação de Esmoriz. Atravessa-se Esmoriz e segue-se pelo caminho das florestais via Cortegaça até ao Furadouro. Este percurso tem normalmente pouco movimento, é muito agradável circular entre os pinheiros e há somente um desnível acentuado junto ao antigo aterro sanitário.

Entre o Furadouro e Ovar existe uma ciclovia, ou antes duas, uma em cada sentido. E foi a essa ciclovia que fomos ter. A seguir a uma marina surge Torrão do Lameiro, o local escolhido para saborear um gelado e continuar até à Torreira.



Duas bicicletas, bem carregadas e ainda para mais levando uma delas um atrelado, não passam despercebidas na estrada. “que espectáculo de reboque!”; “não me dá uma boleias aí atrás?” e até um miudito disse: "Oh pai, olha aquela moto!”. Aos 48 kms começa-se a ver, ao longe, a ponte que vai para Murtosa. Aos 64 kms, chegámos à Torreira, onde ficamos alojados na casa dos nossos amigos Aníbal Lemos e Susana.




Encontrámos também o Fernando Solla e a Luísa. Este último encontro foi precioso para resolver um pequeno problema na corrente de uma das bicicletas. Era dia de festa na Torreira, com grupos musicais à maneira, e caldeirada de enguias ao jantar, uma das especialidades da terra.






ETAPA 2

Torreira - Gala 84 kms total: 156 kms

Da Torreira à pontinha de S. Jacinto são apenas 12 quilómetros que são feitos facilmente devido à estrada ser mesmo plana e muito agradável, bem junto à ria onde circulam os moliceiros.



Os barcos que ligam S. Jacinto à Barra permitem o transporte de bicicletas (embora se pague, o que não é nenhum defeito).



E esta ligação permite a continuação dum passeio fantástico, de bicicleta, sempre plano, muito plano, por estrada ou ciclovias, até para os lados da Tocha...

Passámos de S. Jacinto para a Barra, no barco às 9.30 e o conta kms marcava 84 kms.




Na Barra, é possível tirar fotografias àquelas casas bem características da zona (de influência dinamarquesa),



e a estrada segue bem plana e com berma.



Alguns quilómetros adiante segue-se por uma ciclovia pelo meio dum pinhal junto à estrada. Esta ciclovia começa no desvio para Mira. Tem pormenores, nomeadamente pontes de madeira que até parece que estamos noutro país.




Esta ciclovia às vezes acompanha a estrada, outras vezes afasta-se dela. Mais adiante, virámos para o interior, em direcção à EN 109. Acabamos de passar a Tocha e hoje já fizemos 63 kms, mas o melhor ainda está para vir que é a subida da Serra da Boa Viagem.

O calor aperta, agora que nos afastámos do mar. Passámos por uma farmácia, na EN 109, que marcava a temperatura, 37 graus. São 14.30 e seguimos na boa berma da EN 109.



São 16.15, acabamos de fazer 82 kms, e vamos montar a tenda no Camping da Orbitur, na Gala, a seguir à Figueira da Foz. Acabou por ser uma boa opção passar a ponte sobre o Mondego em vez de ficarmos alojados na Figueira da Foz.




Assim amanhã são alguns quilómetros até Matos de Carriço, e a partir daí em direcção ao mar à Praia da Vieira e depois até S. Pedro de Moel.




ETAPA 3

Gala - S. Pedro de Moel 62 kms total: 218 kms

São 9.10 da manhã e vamos abandonar o camping da Orbitur na Gala e o conta kms marca 143 kms. Hoje vamos até S. Pedro de Moel. Entretanto vão-se aprendendo muitas coisas e uma delas é que não podemos trazer tantas coisas e tanto peso. A tenda que trazemos, por exemplo, é muito pesada. Esta viagem é também para aprender. Do Camping da Orbitur, na Gala, até Matos de Carriço, são 20 kms, numa subida suave mas sempre a subir, na boa berma da EN 109. A partir de Matos de Carriço em direcção a Vieira de Leiria, o piso está muito, muito mau. Este mau piso serviu para confirmar que o Karro-o é um excelente atrelado. E vira-se mais adiante para a praia de Pedrógão.



A partir daqui começa o bom piso. Graças a D. Dinis, temos este famoso pinhal, o pinhal de Leiria. Como seria a costa da zona da Marinha Grande se não fosse D. Dinis?

E eis que surge a Praia de Pedrógão. A partir daqui é outra frescura, sempre com o mar por perto. Após Pedrógão chega-se à Praia da Vieira e no início desta praia, começa uma Ciclovia (Ciclovia da Estrada Atlântica).






Esta ciclovia com cerca de 45 kms acompanha a estrada e às vezes parece que não tem fim.



É fantástico rolar numa estrada só para bicicletas e do lado direito e ver e sentir-se o mar. Por vezes inala-se uma mistura de maresia com os odores dos pinheiros.

Vários cicloturistas cruzam por nós, aos pares. A maior parte deles de aspecto estrangeiro. Vão surgindo praias e lanços de escadas em madeira.



Uma grande parte da nossa costa atlântica tem estas características. Falésias e pequenas praias lá no fundo. Após uma subida muito acentuada, começa-se a avistar, ao longe o farol de S. Pedro de Moel onde vamos ficar alojados no Camping da Orbitur.






O Leo, a Trix, o Becas, a Manuela e nosotros em S.Pedro de Moel



ETAPA 4

S. Pedro de Moel - Caldas da Raínha 52 kms total: 270 kms

São 10.50 da manhã. Arrancam de S. Pedro de Moel duas ciclovias: uma em direcção à Marinha Grande e outra para a Nazaré, que é por onde vamos seguir. Circulamos por uma ciclovia fantástica, e que é uma excelente oferta turística por entre pinhais e dunas. Acabámos de passar o aldeamento da Pedra do Ouro e estamos a ir em direcção ao mar. Esta costa, de bicicleta, tem outro sabor. Já fizemos mais de 200 kms e surge um desvio para a Quinta da Falca onde existe um parque de campismo.






É pena esta ciclovia não ser mais na horizontal. O ideal era ser Nível 1, que fosse acessível para toda a família. Ao Km 216 estamos a entrar na EN em direcção à Nazaré, onde vamos parar meia hora para descansar e comer qualquer coisa.





E de lá seguimos para S. Martinho do Porto, a caminho das Caldas da Rainha. Nesta cidade, a Residencial Adepa fica bem no centro, numa zona pedonal, que além de bom preço e da simpatia dos proprietários tem um local para guardar bicicletas.




ETAPA 5

Caldas da Rainha - Santa Cruz 50 kms total: 320 kms

O sol já se levantou há muito na hora da partida das Caldas da Rainha. O primeiro local de paragem foi o Santuário do Senhor Jesus da Pedra.




Estamos a passar por Óbidos, cidade toda muralhada, que desta vez só é vista da estrada e mais adiante fica um supermercado onde pudemos comprar mantimentos.



Parámos em Columbreira e começamos a subir a Serra d'El Rei, que é uma subida bem dura e longa.




Em direcção ao mar estamos a chegar a Roliça, que segundo dizem tem um castelo ou qualquer coisa de monumental que não conseguimos descobrir. Foi aqui que uma senhora a quem perguntámos qual o melhor caminho a seguir, nos disse: “Vão por aquela estrada, tem pouco trânsito, mas não faz mal, ninguém vai atrás de vocês, ninguém vos assalta, porque vocês são pobres...”.

A seguir parámos numa terra que não me lembro do nome, em que tudo é Malaquias, a rua, a travessa, a praça e a vivenda... E segue-se mais uma subidinha em direcção á Lourinhã.



São 15.25, estamos em Ribamar, e da Lourinhã até aqui foi sempre a subir. Mais uns quilómetros e chega-se à praia de Porto Novo onde começa mais uma ciclovia. Logo á saída de Porto Novo há uma subida muitíssimo acentuada.

Um problema que têm as ciclovias que acompanham as estradas é que estas não estão pensadas tendo em consideração os problemas dos declives. Ás vezes é preferível a ciclovia ser mais extensa, ter mais quilómetros, mas as subidas não serem tão acentuadas. Uma ciclovia assim nunca pode servir toda a família, as três gerações.




São 16.50, estamos a chegar ao camping em Santa Cruz.




As montanhas (principalmente a Serra del Rei), deram cabo de nós e hoje não vamos poder chegar á Ericeira, como estava inicialmente previsto.




ETAPA 6

Santa Cruz - Colares 49 kms total: 369 kms

São 10 da manhã, km 303, partida de Santa Cruz, onde começa uma pequena ciclovia. Passa-se por Casal de Vale Martelo, uma subida com grande inclinação.





Entre Ribamar e Ericeira, mais uma subida muito acentuada, mas sempre com o mar por perto. E eis que surge a Ericeira, que vamos atravessar, sempre junto ao mar, através do casco antigo.






A partir daqui a estrada não tem berma, é a subir e tem muito movimento: um verdadeiro perigo para qualquer ciclista. Alguns quilómetros adiante entramos na Carvoeira, e estamos parados no Café D. Ricardo para beber água e retemperar as forças e lá seguimos, de praia em praia, até Colares.




ETAPA 7

Colares - Carcavelos 42 kms total: 411 kms

Partimos de Colares com o intuito de ir a um dos locais mais emblemáticos de Portugal, o Cabo da Roca. Com uma latitude de 38º 37' N e uma longitude de 9º 30' W, o Cabo da Roca é o ponto mais ocidental da Europa continental. Como quase sempre, e para mais estamos no Verão, recheado de turistas.





E seguimos até ao Guincho, com uma grande ventania, onde começa uma ciclovia que, infelizmente só vai até Cascais.



Atravessa-se Cascais pela zona antiga e a seguir a única solução é seguir pelo passeio.




O trânsito aqui é muito intenso e torna-se perigoso para um ciclista. A linha, de Lisboa até Cascais, bem merecia uma ciclovia. Estoril, S.Pedro e em Carcavelos, esperam-nos o Becas, a Manuela e o João Paulo.




ETAPA 8

de Carcavelos até Tróia 27 kms total: 438 kms

Como estava previamente definido, a ligação de Lisboa a Setúbal seria feita de combóio. E assim aconteceu. Felizmente a Fertagus, a empresa que faz esta ligação, permite o transporte de bicicletas, na última carruagem. E lá fomos apanhar o combóio a Sete Rios. Ao fim de cerca de uma hora, atravessa-se Setúbal de bicicleta, desde a estação até ao porto, onde é feita a ligação de barco até Tróia.

Ao comprar os bilhetes para a travessia de barco no porto, o funcionário estava indeciso, se me havia de cobrar o preço duma bicicleta ou de um carro, visto eu levar um atrelado e ser um veículo muito comprido. Prevaleceu o bom senso e cobrou-me o preço duma bicicleta.






À hora que fizemos a travessia, os barcos que regressavam a Setúbal, vinham apinhados de gente.

Em Tróia esperam-nos o Tó, a Margarida, o Miguel e a Clarinha.




ETAPA 9

Tróia - Lagoa de Santo André 57 kms total: 495 kms

A partir de hoje, temos mais um elemento para pedalar até Lagos, a nossa filha Inês.





O Tó, que tem uma bicicleta igual à minha, ficou encantado com o atrelado.

Quando chegámos a Tróia, constatei que tudo era sujo por causa das obras, apesar de estar muita gente por ser fim-de-semana. Assim, na segunda-feira, de manhã, acordo com o barulho de berbequins e martelos pneumáticos: um barulho ensurdecedor.




São quase 12 horas, parece que vamos no meio do pinhal de Leiria, mas não é, este pinhal não foi mandado plantar pelo D. Dinis. Vamos agora pelo meio de muitos contentores, muitos deles servem de alojamento para os trabalhadores das grandes obras de cimento. Antes já tínhamos passado por um campo de golfe, são as grandes obras do D. Belmiro em Tróia.

De cartaz em cartaz publicitando futuros Resorts, vamo-nos afastando de Tróia.





Tenho reparado, ao olhar para o chão, que as formigas em Tróia, são gigantescas. Andarão bem alimentadas? Comem coisas docinhas? A seguir à Comporta, junto á estação de serviço da ELF, avistam-se do outro lado da estrada, grandes arrozais e muitas cegonhas.



No lugar da Torre, que tem um restaurante e meia dúzia de casas, passei por um senhor a quem perguntei: ''ali nos arrozais, são cegonhas ou garças?'' Ao que ele me respondeu: "são cegonhas e garças". Pois, disse eu, vi ali atrás umas que me pareciam cegonhas, mas outras não. E ele perguntou-me "Você sabe distinguir uma cegonha duma garça?". E ao ver-me sem resposta, perguntou-me: "Vê ali aquela ave? O que é?" Eu não disse nada e então ele continuou: aquela não é nem uma cegonha nem uma garça ... !!!”.

À direita surge Brejos da Carregueira, percorre-se mais quatro quilómetros e vira-se para a direita, para Melides e neste troço de estrada passa-se pela zona prisional de Pinheiro da Cruz.




É então que alguns ruídos estranhos nas bicicletas se sentem com mais intensidade. E eis que, como que por um golpe de magia, surge junto à estrada a oficina do Sr. Horácio. Em poucos minutos o Sr. Horácio pôs as bicicletas a rolar, como novas. Uma das coisas que teve piada foi este senhor dizer que ao domingo, sempre que pode vai dar uma voltinha de BTT, acrescentando que nas redondezas havia excelentes trilhos. Disse também que não há nada melhor do que viajar em "bicicleta a pedal", em que se ouvem os passarinhos e que se vê coisas que muitas vezes passam despercebidas quando se viaja de carro ou mesmo de moto. E dos passeios bonitos que ele fez foi quando foi com os amigos a Fátima, em três etapas, desde Melide.

Foram 56 kms bem planos e estamos a acampar no camping da Lagoa de Santo André.



A Lagoa de Santo André tem algumas afinidades com Tróia. Ou o mar ou a lagoa, água mais fria ou menos fria.




De resto é em tudo (para quem gosta) muito melhor do que Tróia, não há grandes blocos de cimento nem cartazes a anunciar futuros resorts e é tudo muito mais calmo.




ETAPA 10

Lagoa de Santo André - Porto Covo 35 kms total: 530 kms

São 10 horas e estamos a abandonar a lagoa de Santo André em direcção a Sines pela EN 261-5. São cerca de 17 kms por esta estrada que, apesar de não ser uma IP, assim parece. Mas não diz que não é proibido a circulação de bicicletas.





Tem uma grande berma, mas demasiado suja e com muita gravilha. Se calhar pode-se mesmo transitar de biclicleta porque não há outra alternativa. Mais adiante surge Vila Nova de Santo André com casas, prédios e mais prédios novos e praias por perto. A partir de Sines, a estrada que segue para sul, junto à costa, não tem qualquer berma, os carros desviam-se, travam, passam por perto e é muito perigoso.




A partir do desvio para as praias, cuja primeira praia é S.Tropez ou antes S. Torpes, também não tem qualquer tipo de berma embora o trânsito seja muito menor.






Uma ciclovia, mesmo que estreita, do lado direito, quem segue para sul, era qualquer coisa de fantástico que se poderia oferecer aos cicloturistas. Tantas da tarde e estamos em S. Torpes.

Acabámos de entrar na freguesia de Porto Covo. Vêem-se do lado esquerdo eólicas e, devido ás dunas, do lado direito, não se vê o mar. Avista-se ainda Sines, ao longe, olhando para trás.

Quem havia de dizer há uns anos atrás, nem o Carlos Tê imaginava, do lado esquerdo da estrada, mesmo antes de se entrar em Porto Covo, um campo de avestruzes. Se já existisses há anos atrás, se calhar as avestruzes também faziam parte da letra da música.

Hoje percorremos somente 35 kms e estamos a tentar acampar no camping de Porto Covo.







Três bibicletas e duas pequenas tendas cabem sempre em qualquer sítio. Porto Covo, com falésias e pequenas praias tem, na zona central uma rua pedonal muito movimentada, repleta de esplanadas.



Na praça central, quadrada, onde está localizada a igreja, tem muitas barraquinhas de artesanato.




ETAPA 12

Porto Covo - Vila Nova de Milfontes 27 kms 557 kms

Hoje é quinta-feira. Vamos visitar a Ilha do Pessegueiro com o Mestre Joaquim, que tem a concessão das visitas turísticas à ilha.





Conhece-a desde pequeno, quando deu os primeiros passos como pescador, numa altura em que ninguém sabia da existência desta ilha que nem sequer aparece na maior parte dos mapas.







O Mestre Joaquim, um amante incondicional desta ilha, sentiu todos os problemas após a edição da música do Rui Veloso e do Carlos Tê com o títutlo "Porto Covo". Campismo selvagem na ilha, destruição do habitat ecológico, lixo, etc. Apesar de só ter a quarta classe, o Mestre Joaquim aprendeu muito sobre a ilha e sobre a história da ilha. Da ocupação romana, com as salgas de atum e sardinha e da construção dum pequeno forte nos tempos de Filipe I de Portugal. Não se esqueceu de dizer que Francis Drake, o famoso corsário da rainha Isabel I andou por lá. O Mestre Joaquim gosta de fazer perguntas e testar os conhecimentos que os turistas têm da ilha.

Com esta visita acabamos por só largar o camping de Porto Covo depois das 12, e após 6,5 kms, fomos pela estrada até bem perto da Ilha do Pessegueiro, onde há um forte e um recente Parque de Campismo.



Quase 17 kms a seguir, e passa por nós um casalinho, bem jovem, montados em duas BTT. Deu para pensar que nós devíamos ter feito esta viagem quando tínhamos a idade deles. Mas, mais vale tarde do que nunca...



São quase 15.30; hoje foi uma tirada bem curta, só 24 kms.






Estamos no Campingférias em Vila Nova de Milfontes, que é o camping mais central. É dia de festa e noite de música. Quase em frente ao camping, música até às tantas, cuja atracção principal é uma qualquer cantora pimba mais as suas bailarinas. Só às tantas é que conseguímos dormir.




ETAPA 12

Vila Nova de Milfontes - Odeceixe 54 kms total: 611 kms

Bom dia. Hoje é quinta-feira, cerca das 10 horas. Acabámos de abandonar Vila Nova de Milfontes, ja atravessámos a ponte sobre o rio Mira e já fizemos 4 kms.



A frase do dia foi um miudito a dizer para o pai: "Oh pai, aquela bicicleta leva uma roulotte!". Segue-se estrada com uma excelente berma, uma verdadeira ciclovia, só precisava de ser pintada. Mas antes de Almocrava disseram-nos que mais adiante ia haver obras. Para já esta estrada é fantástica. Estava eu tão entretido a dizer que a berma era tão fantástica e generosa e passados 500 metros ela acabou e agora é perigosa, pois existe muito trânsito.

Acabaram de passar por nós quatro cicloturistas atestados de bagagens. Todos muito bem dispostos, como são as pessoas que viajam de bicicleta. Um deles pareceu-me muito velhinho, de barbas e cabelos brancos, mas se calhar era um “velhinho” da minha idade. Se a estrada por onde vínhamos tivesse berma, se calhar íamos em direcção a Odeceixe, assim viramos para Almocrave e vamos ao Cabo Sardão e a Zambujeira do Mar. Por um lado queremos conhecer a costa de bicicleta, por outro esta estrada tem muito trânsito.




Entramos na freguesia de S. Teotónio, possivelmente pertencente ao concelho de Odemira e o símbolo do brazão desta freguesia é um touro. Quer do lado direito, quer do lado esquerdo da estrada vêem-se muitos touros, bois e vacas. Houve um assunto que tive pena de não ter fotografado, porque era num sítio a subir e eu ia todo lançado, um campo com vacas e elas a comerem em banheiras em vez de manjedouras. Eram para aí 15 banheiras. Até parecia uma instalação contemporânea. Ao fim de 34 kms, estamos no Mercado de Zambujeira do Mar.

Soubemos aqui que a estrada directa de Odeceixe para Lagos é muito melhor para bicicletas do que a estrada que vai pela costa até Vila do Bispo. Além disso, os nossos amigos que estavam em Vila do Bispo, já tinham regressado a casa. Em Zambujeira do Mar, pelo ambiente humano, pelo tipo de pessoas, sente-se que houve recentemente festival de música e que muitos ficaram por cá.





E lá seguimos, mais alguns quilómetros até Odeceixe.




Em Odeceixe, no Camping de S. Miguel (que segundo alguns é dos melhores do país), encontramos o Zé Baganha e a Ana e ainda o Zé Couto Marques com os nossos sobrinhos Manuel e José. Eles regressam amanhã para o Porto e vão-nos aliviar o peso: vão levar o atrelado e todos os acessórios de campismo. Aliviado de tanto peso, daqui até Lagos vai ser canja. Não vamos tornar a acampar nesta viagem. Quando chegarmos a Lagos apanhamos o combóio regional para Albufeira e vamos pedalar 10 kms até Olhos d'Água onde nos esperam outros amigos.



À noite, nesse dia, o Zé Baganha e a Ana foram-nos mostrar um atalho em Odeceixe.




ETAPA 13

Odeceixe - Lagos 52 kms total: 663 kms

A estrada que contorna Odeceixe é sempre a subir, com muita inclinação, com muito trânsito e desprovida de berma: um perigo para qualquer ciclista. A sugestão foi, logo a seguir à ponte virar para o centro de Odeceixe e, a partir daí, com a bicicleta na mão seguir até à igreja, da igreja, por uma rua muito íngreme até ao moínho e do moínho até à estrada que vai para Aljezur e segue para Lagos.





A grande vantagem é que pelo interior não é nada perigoso pois não existe quase nenhum trânsito. Passámos Maria Vinagre, aos 9 kms e continuamos na estrada para Aljezur, por uma berma relativamente estreita, mas quem dera que fosse sempre assim. Olha-se em frente, é tudo plano e vê-se uma serra do lado esquerdo. Está fresquito, mas uma excelente manhã para andar de bicicleta. Acabamos de passar Rougil, que junto á estrada tem muita vida, cafés, esplanadas, lojas de revistas, etc. Aos 19,5 kms estamos no centro de Aljezur, onde o trânsito é muito congestionado. A estrada é tão estreita que em muitos pontos dois pesados, não se cruzam. Aljezur, em cascata, é uma povoação muito bonita, com muita actividade no centro.



É sede de concelho e dista cerca de 20 kms de Lagos. Nas minhas viagens de moto pela Europa, nos anos 70 e 80, quando uma moto cruzava por mim, cumprimentávamo-nos, com um aceno ou com um simples toque de luz. A partir dos anos 90, com muito mais motos a viajar, esse costume foi-se, em parte, perdendo. Desta vez, quando passavam por nós, em sentido contrário, bicicletas bem carregadas, como as nossas, era uma festa. Curiosamente muitas motos nos cumprimentavam e mesmo muitos automóveis com palavras de incentivo: “força” ou “boa viagem”. Mas o melhor cumprimento foi um automobilistas, em Aljezur, que nos disse: “Boa viagem. Isso é que é qualidade de vida!”. Para quem nos disse que a partir de Aljezur era sempre a descer até Lagos, devia de fazer esta subida com o atrelado carregado com 20 ou 30 kg de batatas... Já fizemos cerca de 40 kms, já passámos a serra e estamos a entrar em Bensafrim. Daqui a Lagos são 8 kms. São 14.35 e tiramos a fotografia da praxe na entrada de Lagos.




Missão cumprida! Correu tudo muito bem. Que sorte não termos tido nenhum furo nem nenhum acidente.

Em Lagos, estamos na estação à espera do combóio regional para Albufeira. Em Alfufeira vamos pedalar 10 kms até Olhos d'Água onde o Tó Carvalhal, a Leonor e o João Luís nos esperam. O espírito inicial era fazer a ligação do Porto a Lagos, de bicicleta, por estradas junto à costa. Também estava previamente decidido fazer de combóio a ligação de Lisboa a Setúbal. Estava inicialmente previsto, como veio a acontecer, serem as duas primeiras etapas as mais longas, por um lado pelo traçado ser muito suave, tirando a subida da serra da Boa Viagem, por outro lado por serem zonas muito familiarizadas noutros passeios de bicicleta. Em Portugal estão a ser transformadas vias férreas desactivadas em ciclovias (as Ecopistas) e já existem também algumas ciclovias ao longo da costa atlântica. Está também previsto para o projecto Eurovelo (um programa que propõe uma rede europeia de ciclovias) uma ciclovia para ligar na costa algarvia, Sagres a Vila Real de Santo António. Em Portugal, pelo clima e pela paisagem, justificava-se o investimento numa grande ciclovia que pudesse ligar, pela costa atlântica, Valença à ponta de Sagres. Existem apoios europeus para este tipo de projectos mas teria necessariamente de haver algum investimento por parte das autarquias e do governo. Esta ciclovia iria permitir uma ligação entre a Eurovelo 1, que fará a ligação de Nordkapp a Sagres, numa extensão de 8.186 kms, à Eurovelo 2, que fará a ligação de Trondheim a Santiago de Compostela. Cada vez são mais turistas que optam pela bicicleta como forma de viajar em férias e não se pense que turismo de bicicleta seja turismo de “pé descalço”. Constatei isso quando em 2006 fiz o Danube Bike Path, desde Passau, na Alemanha até Bratislava, atravessando toda a Áustria. Viajar de bibicleta é uma opção. Esta famosa ciclovia, está recheada de campings, móteis e hoteis de várias estrelas. É uma ciclovia que tem todas as infra-estruturas que satisfazem as necessidades dos utilizadores de bicicleta. Milhares de bicicletas circulam por esta via no Verão. Por vezes vêem-se famílias inteiras com as três gerações, a pedalar. Outra experiência que já fiz, em 2001 foi o Caminho Francês, o famoso caminho até Santiago de Compostela. Embora Santiago seja um local sagrado, de peregrinação, constatei que grande parte dos cicloturistas fazem o Caminho Francês por motivos bem distintos dos religiosos. Raramente são uma promessa. O Caminho Português na Galiza, desde Santiago até Tuy existe e, embora não tão concorrido como o Caminho Francês que vem dos Pirinéus tem vindo a aumentar o número de utilizadores, de ano para ano. Pelo clima, pela paisagem e sendo bem divulgado, estou convencido que uma ciclovia entre Valença e Sagres, acompanhando a costa atlântica, podia tornar-se, pela sua excelência, uma importante e movimentada ciclovia europeia. Além do mais poderia permitir depois de se chegar a Santiago ir a Tuy, atravessar até Valença e continuar um caminho para Sul.




o regresso

Vê-se cada vez mais turistas a viajar por Portugal de bicicleta, normalmente na modalidade Bike & Train. A possiblidade de transporte de bicicletas nos combóios rápidos devia existir, como acontece em muitos países europeus. Mas nos combóios rápidos, como o Alfa ou o Inter-Cidades não é permitido o transporte de bicicletas. Só se forem todas desmontadas e disfarçadas de bagagem. Com uma BTT, tiram-se as rodas e guardam-se num saco plástico. Mete-se o quadro e o guiador noutro saco, e disfarçam-se como bagagem pessoal. As nossas bicicletas são roda 28. Maiores que as BTT, com guarda-lamas e porta-bagagens. Impossível de disfarçar. Só existe uma solução, os combóios regionais. De Albufeira até ao Porto, em combóios regionais é muito fácil. Apanha-se em Albufeira o combóio regional das 8.07 que chega a Setúbal às 11.05. Às 11.48 parte para Lisboa um combóio (a Fertagus permite o transporte de bicicletas) que termina na estação Roma/Areeiro. Desta estação faz-se a ligação de bicicleta até à estação de Santa Apolónia, onde se apanha às 14.45 o combóio regional para o Entroncamento. No Entroncamento, o combóio regional para Coimbra B, parte às 17,45. Em Coimbra, às 19.51 parte o combóio regional em direcção a Aveiro. Finalmente em Aveiro apanha-se o regional das 21.19. que chega ao Porto às 22.16.
É muito fácil.
Agora falando a sério, não me oponho a que se pague qualquer coisa pelo transporte de bicicletas no Inter-Cidades ou no Alfa, mas essa possibilidade devia existir.

Ainda não são muitos os que se aventuram a ir por aí fora a pedalar. Muitos pensam que para viajar de bicicleta é preciso uma grande preparação física. É mais uma questão mental. A 15 kms à hora pode-se ir bem longe ...